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segunda-feira, 28 de junho de 2010

CALA A BOCA GALVÃO

O Diógenes é um amigo de Piracicaba/SP, também hoasqueiro, tem um grupo próprio.

Ele sempre escreve artigos muito interessantes e compartilha no orkut, talvez alguns de voces já conheçam na comunidade Ayahuasca Brasil.

Este agora eu gostei muito e resolvi compartilhar aqui no blog.

Espero que gostem.

Luis Pereira

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CALA A BOCA GALVÃO

Meu pequenino espaço de paz verde no quintal de casa, no meio do centro urbano, sofreu a invasão repentina de poderosos ruídos: cornetas, fogos de artifício, gritos, aplausos, palavrões, buzinas, cachorrada latindo... enfim, toda a trilha sonora que acompanha o evento contemporâneo do “pão e circo”: a copa do mundo.

Agora mesmo, enquanto escrevo estas palavras, os rojões já estão pipocando e tenho de agradecer, pois ao menos estou treinando minha equanimidade. A meditação deve fluir no silêncio madrigal e no caótico festejo do gol.

Mas em tempos de futebol e meditação, fiquei pensando numa figura odiada e amada por muitos torcedores, o singular comentarista esportivo Galvão Bueno. Na verdade, se levarmos em consideração o quanto ele vem recebendo críticas, penso que ele está mais pro “mal me quer” mesmo. Tanta repulsa pelo narrador esportista deu a luz um movimento mais ou menos organizado, o “cala boca Galvão”.

Faixas espalhadas pela torcida com o ácido enunciado parecem dar um trabalhão para os cinegrafistas, que se movimentam rapidamente tentando evitar a propaganda do movimento organizado “fora, Galvão!”, mas ao mesmo tempo, fazem a alegria das emissoras concorrentes. E quando a coisa toda chegou ao mundo virtual, tomou proporções ainda maiores: americanos e ingleses, curiosos em saber do que se tratavam os inumeráveis posts publicados no Twitter mencionando o nome Galvão, receberam um trote dos bons. Brasileiros, ainda não identificados, espalharam a informação de que “Galvão” seria o nome de uma ave em extinção no Brasil e que “cala a boca” significaria algo como “salvem”.

Desde então, ingleses e americanos apóiam o movimento entusiasticamente para salvar a ave em extinção, espalhando a frase “Cala a boca Galvão!” mundo afora, já existem até cartazes e vídeos para divulgar.

Mas e a meditação, onde entra nisto tudo? Muito bem. O comentarista está lá, falando sem parar, descrevendo cada movimento, cada bola fora, cada falta, cada gesto para os telespectadores. Ora, está lá na cara de todos, todo mundo está vendo, mas o narrador fala, fala, fala. Na época do rádio até funcionava, mas hoje praticamente todas as famílias têm em casa uma televisão, e ainda assim, o comentarista não foi aposentado, ele continua exercendo a função de descrever o que está claro e à vista de todos.

Muito bem, na meditação também temos este chato tagarela, o nosso comentarista interior, uma vozinha teimosa que fica narrando a todo o momento tudo o que está acontecendo, traçando opiniões em cima do que é, do que está claro e manifesto.

Não sei como é para você, caro amigo, mas às vezes esta voz tagarela chega a ser insuportavelmente irritante e dá vontade de soltar um belo grito saído das entranhas:

CALA A BOCA GALVÃO!

Galvão Bueno que me perdoe, mas tive que usá-lo para exemplificar esta falação interna. Não é nada pessoal, eu até acho o sorriso do Galvão bonito, bochechas verdadeiramente coradas... Mas a irritabilidade nada simbólica que ele produz em muitas pessoas ilustra muito bem o tema.

O pensamento fica ali correndo de um lado para outro, narrando nossas ações e pautando nossas atividades, rubricando em cima da vida, enchendo de ruído o nosso espaço interior com opiniões, sugestões, equações sem fim para resolver alguma coisa muito “complicada”, que só é o simples viver.

A televisão tem um recurso ótimo para isto, chamado “mute”: você aperta um botãozinho e acabou o Galvão. Mas e a mente? O filme da vida vai correndo e uma legenda contínua vai nomeando cada cena.

Coloque-se diante de uma grande paisagem natural, em cima de um alto monte, e diante de toda aquela exuberância que nos rouba o ar, o Galvão interior vai comentar:

“Que lindo!” E este inocente comentário é uma maneira ardilosa de evitar o arroubo do momento, pois quando nomeamos a coisa, nos desviamos dela. Quando estamos diante desta beleza, que, como disse, nos rouba o ar, sentimos que vamos nos perder ali mesmo. É imenso, pois tem o poder de nos colocar num estado alterado de consciência.

Este estado é acompanhado de um assombro, onde a psique, a personalidade e o passado não são convidados. Eu posso derreter-me ali - e sabe-se lá o que pode acontecer! - então um processo condicionado de proteção e resistência tem inicio: que lindo, que coisa boa, que terrível, que chato, que qualquer coisa. Tudo isto para evitar perder o sentido de “eu”.

Na meditação, o observador e o objeto observado vão se fundir, e a linguagem não interfere, não pode acontecer. Há apenas o evento, a “coisa”, ou o manifesto some, se perde no imanifesto, e fica a observação, o ato de contemplar silenciosamente.

O desafio é aceitar o Galvão nada Bueno ai dentro, deixar a voz falar e falar e falar até desmaiar. Não há garganta que agüente, não há fluxo de pensamento tagarela que não seja pacificado diante de uma serena observação desprovida de preferências.

Se estivermos perceptíveis e mantendo o fluxo livre da respiração, pouco a pouco a serenidade vai prevalecer, um intervalo será dado, uma pausa silenciosa vai se espreguiçar em seu mundo subjetivo, o que provocará transformações verdadeiras em seu mundo objetivo, maior clareza, mais energia, mais disposição, mais atenção etc. Apenas uma pausa de fato, porque virá o segundo tempo, e lá estará de volta nosso companheiro papagaio.

Há mais do que o pensamento, e vamos percebendo isto na medida em que ancoramos nossa atenção mental nos fenômenos manifestos no presente, e sempre é positivo recordar, que o corpo é um fenômeno do agora.

O condicionamento se fortaleceu e se fortalece quando desviamos nossa atenção do corpo para o pensamento, produzindo a fragmentação interna. Agora vamos empreender uma viagem diferente, trazemos o foco para as sensações, para a respiração, sem lutar, sem resistir ao pensamento.

Deixamos a tagarelice acontecer, não nos agarramos a ela, nem com apego, nem com aversão. O espetáculo é o jogo, o maha leela de Deus na manifestação, e o comentarista é só um fenômeno a mais que se desvanecerá no tempo. Eu não sou o “Galvão”, e eu também não sou o jogo, EU SOU a testemunha.

Mas é possível ou não dar um “cala boca Galvão!”? Há certos truques que ajudam positivamente para isto, como exercícios de kriya yoga, meditações ativas, mantras, respiração alotrópica etc. No entanto, quando você não estiver de posse destes recursos, na vida prática dentro das atividades cotidianas, será mais difícil dar-se conta da atuação sorrateira do comentarista interior e em sua dinâmica de interferir nas percepções. Aliás, ele poderá voltar com mais ímpeto, e agitar a lagoa da mente.

São recursos valiosos, mas nada como a percepção direta de si, das sensações, das contrações musculares, do fluxo da respiração, do movimento do próprio pensamento, tudo isto você carrega continuamente consigo, sentado, deitado, caminhando, trabalhando ou em contemplação meditativa.

Você poderá antes de sua meditação e mesmo ao inicio do dia, realizar o seu Sankalpa, a sua afirmação positiva. Aplicamos a resolução interna de mantermo-nos serenos e tranqüilos durante toda a nossa prática, ou mesmo durante todas as nossas atividades. É interessante nutrir um sentimento positivo diante da vida, e manter o inconsciente informado de que agora estamos abertos à vivência da serenidade e da atenção.

Não podemos esperar que uma pessoa fique a desfilar a nossa frente com uma faixa nos fazendo recordar o “cala a boca Galvão”. Teremos de desenvolver esta habilidade de voltar-se para o momento presente, para o corpo e para a respiração por nós mesmos.

Retornar para o centro, para o nosso verdadeiro SER, que não tem torcida, nenhuma preferência, nenhuma bandeira, nem opiniões formadas sobre o existir, mas que é pura disponibilidade para a vida, para o Amor.

É interessante criar um paralelo aqui com a copa do mundo: antes de cada jogo o comentarista traz o histórico dos jogos passados entre os times adversários, quantas vezes ganharam ou perderam um do outro etc. O nosso Galvão interior faz o mesmo, revelando memórias sobre o passado, em especial os erros que cometemos.

Nada podemos fazer para alterar uma poeira se quer do que passou. Talvez você possa encontrar a pessoa envolvida no episódio triste, mas ainda assim, isto já é presente, e então, quando surgem estas retrospectivas internas, você pode dar um belo “cala a boca” simplesmente sorrindo diante das imagens mentais e aplicando o decreto:

“Os erros que cometi no passado, os cometi por não ser maduro o suficiente, AGORA EU SOU!”.

Aplique o Sankalpa e siga contemplando o jogo, sem identificar-se com nada, sem torcer por nenhum dos lados que se apresentam diante do campo interno. Não se identificando nem com o comentarista (a narrativa interna), nem com o juiz (os julgamentos), nem com a partida (o conflito).

Apenas por curiosidade, que tal sabermos a origem da palavra “copa”? Ela vem do latim e significa “vasilha grande” e dela vem também a palavra “copo”. O troféu era uma grande taça onde se poderia até mesmo beber champanhe. Isto, porém, já faz tempo e o troféu perdeu o côncavo necessário para fazer literal o sentido de copa.

Eu, de minha parte, estou torcendo pelo Amor para que ele aconteça, que esta vibração poderosa possa ser percebida pela rede da vida, que todos os seres conectados nesta grande trama do existir, despertem para a sua verdadeira natureza.

Que nesta grande copa, que é o coração, possa derramar-se a luz de sabedoria, graça plena do Amor transbordante do Mestre!

Que o vinho místico do Amor transborde em sua taça!

Vida plena!

Vajrananda (Diógenes Mira)

Um comentário:

gui araujo disse...

Ótimo artigo. Estou compartilhando-o em meu blog.
Paz..