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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O QUE FORTALECE E ENFRAQUECE NOSSA INTEGRIDADE

Nota 1: o artigo é longo mas vale cada frase. Reserve um tempo para estudá-lo. Tradução livre e não profissional do artigo deste site:
http://www.artofmanliness.com/2013/08/05/what-strengthens-and-weakens-our-integrity-part-i-why-small-choices-count/

Nota 2: Até onde sabemos este artigo é parte ou baseado no livro "The Honest Truth About Dishonesty: How We Lie to Everyone - Especially Ourselves" de Dan Ariely - confira o original aqui:http://www.amazon.com/gp/product/0062183613/ref=as_li_ss_tl?ie=UTF8&camp=1789&creative=390957&creativeASIN=0062183613&linkCode=as2&tag=stucosuccess-20


Nota 3: Recomendamos também o livro completo do autor que já está publicado no Brasil com o nome "A Mais Pura Verdade Sobre a Desonestidade" - confiram locais de venda e preços aqui:
http://www.buscape.com.br/a-mais-pura-verdade-sobre-a-desonestidade-dan-ariely-8535258086.html?pos=1#precos


Nota 4: Animação sobre o texto/livro de Dan Ariely: (em inglês)
https://www.youtube.com/watch?v=XBmJay_qdNc#t=20

Parte 1:
POR QUE PEQUENAS ESCOLHAS CONTAM

Integridade: é uma qualidade que vale a pena todo homem desejar. Ela engloba muitas das melhores e mais admiráveis características em um homem: Honestidade, retidão, fidelidade, justiça, lealdade e coragem para manter suas palavras e promessas independentes das consequências. A integridade é uma palavra que deriva do latim para "totalidade" e denota um homem que integra com sucesso todas as boas virtudes - que não fica só no diz que faz, mas faz o que diz.

De um modo geral, não é muito difícil falar sobre essa qualidade e aconselhar a simplesmente fazer isso, mas um rápido olhar para as manchetes intermináveis alardeando os mais recentes escândalos e casos de corrupção, mostra que nem sempre esta é a abordagem mais eficaz. Enquanto a base da integridade está em ter um código moral firme de certo e errado, ela também pode ser extremamente útil e ate mesmo fundamental para entender os fatores psicológicos e ambientais que podem nos tentar a desviar desse código. O que está na raiz de nossa decisão de comprometer, por vezes, nossos princípios? Que tipo de coisas nos levam a ser menos honestos e que tipos de coisas que nos ajudam a ser mais íntegros? Quais são algumas maneiras práticas que podemos verificar nossas tentações de ser imoral ou antiético? Como podemos fortalecer não só nossa própria integridade, mas a integridade da sociedade também?

Nesta série de quatro partes sobre integridade, vamos usar a pesquisa de Dan Ariely, professor de psicologia e economia comportamental e outros, a fim de responder a estas questões vitais.

Por que comprometemos nossa integridade?

Todos os dias somos confrontados com pequenas decisões que refletem na nossa integridade. O que é bom chamar de despesa de negócios para colocar no cartão coorporativo? Será que é mesmo tão ruim aumentar um pouco a verdade para melhorar meu currículo e conseguir aquele emprego dos sonhos? É errado fazer uma paquera ocasional quando sua namorada não esta por perto? Se você perdeu muitas aulas, você pode dizer ao professor que um familiar morreu? É ruim fingir-se de doente para não ir ao trabalho (ou algum compromisso familiar que você quer evitar) quando se esta de ressaca? É certo piratear filmes e utilizar Adblock quando navega na internet?

Durante muito tempo pensava-se que as pessoas tomavam tais decisões, empregando uma analise racional de custo/beneficio. Quando tentada a se envolver em um comportamento antiético, elas pesam as chances de serem pegas e a possível punição que isso possa gerar ou de uma possível recompensa, para em seguida agir conforme a escolha.

No entanto, experimentos de Dan Ariely entre outros estudiosos, demostraram que esta longe de ser uma escolha deliberadamente racional. Desonestidade muitas vezes é fruto de fatores psicológicos e ambientais que as pessoas normalmente não estão nem mesmo conscientes.

Ariely descobriu esta verdade através da construção de um experimento em que participantes (estudantes universitários) sentaram-se em uma sala de aula cenográfica e receberam 20 equações matemáticas para resolver. Eles foram desafiados a resolver o maior numero de equações que podiam dentro de 5 minutos e ofereceu 50 centavos para cada acerto. Quando os 5 minutos acabaram, os alunos entregavam seu teste para o experimentador, que contabilizava as respostas corretas e pagava a quantidade de dinheiro pelas questões acertadas. Nesta condição de controle, os participantes resolveram corretamente uma media de quarto equações matemáticas.

Ariely então introduzia uma condição que permitia uma fraude. Quando os participantes terminavam, eles conferiam as suas próprias respostas e rasgavam os testes no fundo da sala e eles mesmos relatavam a quantidade de equações que acertaram para o experimentador localizado na parte da frente da sala, que em seguida os pagava corretamente. Quando a possibilidade de trapaça foi introduzida, os participantes afirmaram resolver seis equações, duas a mais que o grupo em condição de controle. Ariely descobriu que dada a oportunidade, muitas pessoas trapaceiam, mas apenas um pouco.

Para testar a ideia de que as pessoas estavam fazendo uma analise de custo/beneficio no momento de decidir se deve ou não trapacear, Ariely introduziu uma nova condição que deixaria claro que não haveria nenhuma chance de ser pego: depois de verificar seus acertos e rasgar seus testes, os participantes recebiam seu pagamento não das mãos do experimentador, mas retirando de dentro de um recipiente de dinheiro que ficava ao lado de fora da sala sem que alguém estivesse olhando. No entanto, ao contrario das expectativas, a impossibilidade de ser pego não aumentou a taxa de trapaças. Então Ariely propôs aumentar o valor oferecido pelos acertos, pois se trapacear era de fato uma escolha racional com base em incentivo financeiro, então a taxa de trapaças deveria ter aumentado com o aumento de recompensa. Mas aumentar o valor a ser pago não causou este efeito, na verdade quando a recompensa estava no valor mais alto de 10 dólares para cada resposta correta, o participante reivindicava apenas o que realmente acertou. A trapaça foi por agua a baixo. Por quê? "Era mais fácil para eles enganar e ainda se sentir bem com seu próprio senso de dignidade" Ariely explica: “Por 10 dólares por equação, nós não estamos mais falando do tipo de trapaça que seria, por exemplo, roubar um lápis do escritório”. É mais parecido com pegar varias caixas de canetas, um grampeador e um pacote de folhas sulfites, que é muito mais difícil de ignorar ou racionalizar.

Isso que Ariely descobriu, foi a raiz das verdadeiras motivações das pessoas para trapacear. Ao invés de decidir-se em serem apenas desonestas pesando o risco versus recompensa, elas também são muito influenciadas pelo grau em que a atitude afetará sua própria capacidade de ver a si mesma de forma positiva. Ariely explica estas duas direções opostas:
"Por um lado, queremos nos ver como pessoas honestas e honradas. Queremos ser capazes de olhar para nós mesmos no espelho e se sentir bem sobre nós mesmos (os psicólogos chamam essa motivação de ego). Por outro lado, queremos o beneficio da trapaça e obter o máximo de dinheiro possível (a motivação financeira é a motivação padrão). É evidente que estas duas motivações estão em conflito. Como podemos garantir os benefícios de trapacear e ao mesmo tempo vermos a nos mesmos como pessoas honestas e maravilhosas?

Aqui é onde nossa incrível flexibilidade cognitiva entra em jogo. Graças a essa habilidade humana: enquanto nos enganamos por apenas um pouco, podemos nos beneficiar de enganar e ainda nos vermos como seres humanos maravilhosos. Este equilíbrio é o processo de racionalização e é a base do que chamaremos de ‘teoria do fator de correção’.”
A "teoria do fator de correção", explica como podemos traçar o limite entre o "isto é bom" e "isso não é bom" entre as decisões que nos fazem sentir culpados e aquelas que encontramos uma forma de confiantemente justificar. Quanto mais somos capazes de racionalizar nossas decisões como moralmente aceitáveis, maior é o limite de fator de correção. E a maioria de nós é boa em justificar dizendo: “Todo mundo está fazendo isso, isso só nivela as coisas... Eles são uma grande empresa, isso não vai afeta-los... Eles não pagam o suficiente mesmo... Ele me deve isso... Ela me traiu uma vez também... Se eu não fizer isso meu futuro estará arruinado...”.

Onde você traça o limite e como você permite que uma mentira altere seu fator de correção é influenciada por uma variedade de condições externas e internas, mas o mais importante é isso: dar um primeiro, ainda que pequeno passo desonesto. Outras condições podem aumentar ou diminuir a probabilidade de dar esse passo inicial, e vamos discuti-las em seguida, após essa serie. Frequentemente o cerne da questão é essa escolha pela primeira decisão desonesta. Vamos começar por aí.

O primeiro corte é o mais profundo: escorregar na pirâmide da escolha

Alguma vez você já observou como uma figura publica que já foi admirada se revelou um corrupto e já se perguntou como foi que ele chegou tão longe?

Oras bolas, ele não acorda um dia e decide embolsar um milhão de dólares que não era dele. Ao invés disso, sua jornada para o "lado negro" quase que certamente começou com uma aparentemente pequena decisão, algo que a ele parecia ser bastante inconsequente na época como falsificar apenas um número ou dois em uma de suas contas. Mas uma vez que ele pôs um pé na porta da desonestidade, seus crimes foram muito lentamente crescendo e crescendo.

No livro Mistakes Were Made (but note for me) (Erros foram cometidos, mas não por mim – livre tradução) , os psicólogos sociais Carol Travis e Elliot Aronson ilustram a maneira pela qual uma única decisão pode alterar muito o caminho que nos tomamos e a força de nossa integridade. Eles usam o exemplo de dois estudantes universitários que se encontram lutando em uma prova que vai determinar se vão conseguir ingressar numa pós-graduação. Eles são "idênticos em termos de atitudes, habilidades e saúde psicológica", e são "razoavelmente honestos e tem na media a mesma atitude para trapaças".

É dada aos dois alunos a chance de ver a resposta de outro estudante e os dois lutam com a tentação. Mas um decide ceder à trapaça e o outro não. "Cada um ganhou algo importante, mas com um preço; um escolheu a integridade de uma boa nota, o outro escolheu uma boa nota para preservar sua integridade."

O que cada aluno pensa e diz sobre si mesmo reflete sobre essa decisão? Como foi explicado na nossa serie anterior sobre responsabilidade social, quando você comete um erro ou alguma decisão sua está em desarmonia com seus valores, uma lacuna se abre entre seu comportamento real e sua autoimagem como uma pessoa honesta, boa e competente. Devido a essa diferença você experimenta uma dissonância cognitiva - uma espécie de ansiedade mental ou desconforto. Como o ser humano não gosta desta sensação de desconforto, o nosso cérebro trabalha rapidamente para cobrir a lacuna entre a forma como agimos e a nossa autoimagem positiva, justificando que o comportamento não é realmente tão ruim assim.

Desta forma, o estudante que decidiu trapacear vai tranquilizar sua consciência, dizendo coisas do tipo: "Eu sabia a resposta, eu simplesmente não conseguia me lembrar disso no momento", ou "Todos os estudantes também trapaceiam", ou "Antes de qualquer coisa a prova não era justa mesmo, o professor se quer disse que cairia este assunto". Este estudante vai encontrar formas de justificar sua escolha pela trapaça, como não sendo uma grande coisa.

O aluno que não trapaceou embora não sentirá a mesma dissonância cognitiva que o outro, ainda se perguntará se fez a escolha certa, especialmente se ele não obtiver uma boa nota na prova. Sentindo-se em dúvida sobre sua escolha, ele poderá igualmente sentir alguma dissonância e então este aluno também buscará reforçar a confiança que sente em sua escolha refletindo sobre o erro que é trapacear e como é bom ter uma consciência limpa.

A medida que o aluno reflete sobre a justificativa de sua escolha, a sua atitude sobre trapaça e sua auto percepção vão mudar sutilmente. O aluno que trapaceou vai afrouxar sua percepção de quando trapacear é conveniente, sentindo que não há nada de errado em ser o tipo de pessoa que trapaceia por uma boa razão. Sua capacidade de justificar escolhas desonestas vai aumentar e expandir sua margem de fator de correção. Já o aluno que manteve sua integridade vai sentir ainda mais forte que trapaças nunca são aceitáveis e sua capacidade de justificar a desonestidade vai diminuir também, assim como sua margem de fator de correção moral. Para diminuir ainda mais a ambiguidade e reforçar as certezas que estes alunos têm de suas escolhas divergentes, eles farão cada vez mais escolhas de acordo com essas novas posturas.

Enquanto que os dois estudantes partiram do mesmo lugar moralmente ambíguo e muito semelhante, eles viajaram para a base do que Tavris e Aronson chamam de "A Pirâmide da escolha", porem chegaram a cantos opostos desta base. A decisão é a única coisa que os levou para cantos opostos. Como podemos ver, com apenas um passo de desonestidade iniciou-se um "processo de aprisionamento: ação-justificação-outra ação, que aumentam a intensidade e comprometimento e pode acabar nos levando para longe de nossas intenções e princípios originais”.

Ah! Que se dane!

Ao invés de serem duas linhas em constante crescimento, os caminhos que divergem a partir de uma única escolha muitas vezes tomam um rumo que mais se parece com isso:

O que está acontecendo com essa linha divergindo acentuadamente a esquerda? Ela representa o momento em que uma pessoa que faz uma serie de decisões desonestas atinge o ponto "que se dane".

É mais fácil de entender o chamado efeito "que se dane" se você já esteve em uma dieta alimentar rigorosa. Vamos supor que você está em dieta de baixo carboidrato e você tem ido muito bem por algumas semanas. Você sai com amigos para jantar e a garçonete coloca bem a sua frente um cesto de pão quentinho e perfumado. Então você continua resistindo a tentação e prefere ficar com seu bife e brócolis... Mas poxa vida, aqueles pãezinhos parecem ótimos e você decide finalmente provar apenas um, o que o leva a outro e depois mais um. Quando seu amigo decide pedir uma sobremesa e pergunta se você também quer, ao invés de ficar com seu ligeiro lapso e recuperar sua força você pensa: "Ah! que se dane, eu já arruinei a minha dieta de qualquer jeito, amanha reinicio com novo animo." Você desfruta sua torta de sobremesa e quando chega em casa ainda toma uma taça de sorvete, afinal tem de aproveitar ao máximo seu dia "arruinado" antes de começar tudo de novo na manhã seguinte.

Em seus estudos, Ariely descobriu que o efeito "que se dane" te envolve não somente em questões de dieta, mas também nas questões dobre integridade.

Em outro experimento que ele conduziu, foi mostrado aos participantes 200 quadrados um atrás do outro em uma tela de computador. O objetivo era escolher qual lado do quadrado tinha mais pontos. Se eles escolhessem o lado esquerdo ganhariam cinco centavos e se escolhessem o lado direito ganhariam dez centavos. O pagamento não estava condicionado a resposta estar certa ou não, de forma que o participante foi confrontado entre escolher a resposta que eles sabiam ser a certa, porem receber um valor menor por isso ou escolher a receber um valor maior em dinheiro mesmo sabendo que a resposta estava errada.

O que Ariely descobriu é que os participantes que eventualmente trapaceavam aqui e ali no iniciam do experimento, acabavam chegando a um "limite de honestidade", um ponto em que eles iriam pensar: "Que se dane, eu sou um trapaceiro, mas pelo menos posso ganhar mais dinheiro" e então eles passam a trapacear em praticamente todas as oportunidades. A primeira decisão de enganar levou a outra, até que a sua margem de fator de correção se estendeu de uma brechinha para um abismo e as preocupações com integridade caíram dentro do penhasco.

Conclusão

Uma vez que você cometer um ato desonesto, enfraquecerá seus padrões morais e sua própria percepção como uma pessoa honesta ficará confusa. Sua capacidade de racionalizar cresce e sua margem de fator de correção aumenta. Fica difícil traçar a linha entre o ético e o antiético, honesto e desonesto. Ariely descobriu em sua pesquisa que cometer um ato desonesto em uma área da sua vida, não só leva a mais desonestidade somente nesta área, mas acaba corrompendo todas as demais áreas de sua vida também. "Um único ato de desonestidade", argumenta ele, "pode mudar o comportamento de uma pessoa dali pra frente”.

Isso significa que se você quer manter sua integridade, a melhor coisa a fazer é nunca dar o primeiro passo desonesto. Não importa o quão pequena e inconsequente uma escolha possa parecer naquele momento, você ingressará por um caminho que mancha seu termômetro moral e o levará a cometer delitos ainda mais graves e fará você comprometer seus princípios mais fundamentais.

Ariely argumenta que não está somente nos impedindo de dar um fatídico primeiro passo de desonestidade, mas coibindo pequenas infrações na sociedade também. “Enquanto ele admite que seja tentador ignorar erros primários como não sendo grande coisa, sua pesquisa demonstrou que “não deveria desculpar, esquecer ou perdoar pequenos crimes, pois isso pode piorar a situação” Ao invés disso, ao reduzir “o numero aparentemente inofensivo de desonestidade, a sociedade pode se tornar mais honesta e menos corrupta a longo prazo". Para isso não seria necessário envolver mais regulamentação ou politicas de tolerância zero que Ariely acredita não ser efetivo, mas sim instituir um controle mais sutil a integridade pessoal e pública, alguns dos quais discutiremos nas próximas partes desta serie.

Obviamente, nem todos que fazem uma má escolha acabam moralmente depravados e totalmente corruptos. Muitos de nós somos capazes de fazer um erro, ou mesmo vários, mas em seguida voltar pra linha novamente. Isto ocorre porque há varias condições que não se limitam em apenas nos tornar mais ou menos suscetíveis a essa primeira decisão desonesta, mas também aumentam ou diminuem as chances de cair morro abaixo nas questões antiéticas.

Uma dessas condições que é a distancia que sentimos entre nossas ações e suas consequências e é o assunto que abordaremos no próximo estudo da serie.



Parte 2:COBRIR A BRECHA ENTRE NOSSAS AÇÕES E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Na primeira parte desta serie de estudos sobre o que enfraquece a nossa integridade e como podemos fortalecê-la, discutimos como as nossas decisões por atos de desonestidade são influenciadas por dois fatores: 1) desejar receber uma recompensa que pode ser financeira / material ou prazer e fama; 2) O desejo de continuar vendo a si mesmo como uma pessoa boa.

Como o professor de psicologia Dan Ariely diz: "Essencialmente nós enganamos até o ponto em que conseguimos manter nossa autoimagem como indivíduos razoavelmente honestos”.

A forma que encontramos de equilibrar essas emoções conflitantes se resume em racionalizar nossos comportamentos antiéticos e egoístas acreditando que não são tão ruins. Quanto mais você é capaz de justificar suas ações morais, mais tênue fica a linha entre o que você considera certo e errado e torna mais amplo o limite do "fator de correção".

Já falamos anteriormente como dar um pequeno passo em direção a desonestidade pode desencadear um ciclo de racionalização e reforçar ainda mais o comportamento desonesto, que poderá leva-lo para longe de seus princípios e a cometer crimes ainda mais graves. Mas quais são os fatores que estão em jogo quando você dá o primeiro passo? E o que mantem você persistindo nesse caminho sombrio uma vez que se inicia nele?

Vamos explorar agora um dos fatores mais importantes que aumentam nossa capacidade de racionalizar um ato desonesto e como podemos combater essa foça a fim de manter nossa integridade

A distância entre a ação e a consequência

Umas dessas influências significativas é a distância psicológica entre o ato e as suas consequências. Quanto menos pensarmos em como uma decisão imoral afeta outra pessoa e evitamos ter de encarar a realidade do que estamos fazendo, mais fácil se torna a escolha sem sentir-se mal com isso.

Ariely realizou diversos experimentos que evidenciaram este principio de comportamento

Primeiro ele conduziu um experimento não cientifico em vários dormitórios de um campus universitário. Em alguns refrigeradores de uso comum de alguns dormitórios ele colocou um engradado de Coca-Cola e em outros deixou um recipiente com notas de dinheiro equivalente ao valor dos refrigerantes. Embora a Coca e as notas tivessem o mesmo valor, apos 72 horas todos os refrigerantes haviam sumido, mas as notas estavam intactas. Os alunos poderiam facilmente ter passado a mão na grana e usado para comprar uma Coca nas máquinas de vendas que tinham por perto. Mas eles não fizeram isso. Por quê? Porque apropriar-se de dinheiro em sua forma bruta faz sentir que é um roubo, enquanto que pegar uma Coca (um item que está além do dinheiro) faz se sentir bem melhor. Ariely compara isso ao mesmo mecanismo que levaria um funcionário a pegar para si um pacote de folha sulfite do escritório, mas jamais ousaria se apropriar de quatro reais em dinheiro de dentro do caixa.

Apos este experimento inicial, Ariely queria comprovar se a mesma coisa aconteceria em um ambiente mais controlado. Então ele voltou para o teste original que falamos na primeira parte da serie. Se você se lembra, foi pedido aos participantes para resolver o maior numero possível de equações matemáticas em 5 minutos que receberiam pelos acertos. Na condição que permitia uma fraude, os participantes verificavam suas próprias respostas, rasgavam suas provas na parte de trás da sala e informavam ao experimentador quantos acertos tinham conseguido a fim de ganhar o dinheiro prometido (uma vez que o experimentador não iria verificar a folha de teste deles, poderiam afirmar que acertaram quantas equações quisessem). Desta vez, Ariely confundiu um pouco as coisas dando primeiro aos participantes fichas de plástico ao invés de dinheiro que deveriam ser trocadas posteriormente na sala ao lado. O que aconteceu quando este pequeno elemento foi adicionado entre a oportunidade de mentir e receber o dinheiro diretamente? Participantes enganando o dobro.

Em outro estudo, Ariely entrevistou centenas de jogadores de Golfe e eles deveriam imaginar uma situação em que eles moveriam a bola (o que é contra as regras do jogo) e receberiam uma vantagem por isso. Ele lhes pediu para imaginar quantas vezes na media o jogador iria mover a bola: 1- Tocando a bola com um taco de golfe; 2- Chutando com o pé ou 3- pegando com a mão. Os entrevistados imaginaram que um jogador comum (de golfe) usaria o taco duas vezes mais do que usaria a mão (e os pés seriam usados mais do que o taco e menos do que as mãos sendo, portanto uma opção intermediária). Ainda que a maneira como a bola era movida não muda em nada o fato de que se tratava de uma trapaça, movê-la com o uso do taco faz com que pareça menos desonesto, porque você não está em contato direto com a bola, você está separado do que está realmente fazendo. É mas fácil para o jogador dizer a si mesmo que é apenas um deslize que aconteceu sem querer, que não é um ato tão horrível e continuar a se senti como um cara honesto. Em contraste, Ariely escreve que se o jogador trapaceasse utilizando diretamente a mão, não haveria "nenhuma maneira de ignorar o proposito e a intencionalidade do ato".

Como neutralizar a Distância e fortalecer a sua integridade

Quanto maior a distância psicológica entre as nossas ações desonestas e suas consequências, mais fácil racionalizar essas ações como morais e eticamente aceitáveis. E quanto mais nossa capacidade de racionalizar aumenta, amplia-se a margem do fator de correção. Assim, a fim de fortalecer e preservar nossa integridade, é importante remover a lacuna, ainda que em nossas mentes, entre nossas ações e a realidade do que estamos fazendo e como isso afeta os outros.

Este pode ser um problema complicado, porque estamos contrariando uma questão psicológica. Primeiro temos que influenciar nossa mente para ver a importância do que esta acontecendo. Se antes de tudo não enquadrarmos nosso atos de hipocrisia como algo errado, não poderemos trabalhar para removê-los de nossas vidas. Ao invés de permitirmo-nos ignorar o problema, (não deixe que a mão esquerda saiba o que a direita esta fazendo!) Temos que trabalhar para criar conscientemente mais consciência das consequências de nosso comportamento.

Cultivar essa consciência literalmente se resume em racionalmente fazer a separação entre alguma coisa e seu valor ou o efeito sobre outra pessoa. Assim, por exemplo, se você esta prestes a pegar um pouco de tinta da impressora do trabalho, imagine-se que ao invés disso esta pegando 30 reais da gaveta do seu chefe. Se você não consegue se imaginar furtando o caixa, perceberá que com a tinta não é diferente.

Vejamos outro exemplo. Digamos que você recebe 15 reais por hora para fazer seu trabalho, mas você passa uma hora do seu trabalho jogando conversa fora. Você esta praticamente roubando 15 reais do seu empregador. Claro que navegar na web não faz ninguém sentir que esta roubando. Mas isso não é de fato nada diferente do que embolsar um item de 15 reais enquanto faz suas comprar e não pagar por isso.

Outro elemento eficaz para adicionar a esse tipo de exercício mental é imaginar a pessoa que mais será afetada pela sua ação (ou talvez um ente querido ou alguém que gosta de você) a sua frente enquanto você faz isso. Será que você ainda pegaria a tinta da impressora ou tiraria um cochilo em horário de trabalho se seu chefe estivesse bem ali do seu lado? A necessidade de esconder algo é um sinal evidente que sua moralidade é questionável. Como se costuma dizer: integridade é o que você faz quando ninguém esta te olhando.

Claro que visualizar suas ações afetando alguém pode ser difícil se você trabalha para uma grande corporação. Em tais casos, a desonestidade e a racionalização se tornam infinitamente mais fácil, porque suas ações podem parecer distantes de quaisquer consequências e o prejuízo delas pequeno. No entanto, a essência da integridade é que uma ação errada é errada independente de sua magnitude... Roubar 10 reais de um homem rico não é mais certo que roubar 10 reais de um homem pobre. Não importa que a sensação de um ato seja diferente do outro. Roubar é roubar.

Também pode ser muito mais fácil de arranjar desculpas para seu comportamento desonesto se você não gosta do seu trabalho ou da pessoa com quem tem de lidar. Em outro experimento conduzido por Ariely, as pessoas recebiam a mais quarto dólares das mãos de qualquer experimentador neutro (condição de controle) ou de um experimentador que foi rude com eles. Na condição de controle 45% das pessoas devolveram o troco excedente (bastante preocupante que mais da metade das pessoas tenham ficado com o dinheiro). Mas apenas 14% das pessoas que lidaram com o experimentador rude devolveram o troco... Para eles, ficar com o troco indevido poderia ser justificado como uma punição para o comportamento do experimentador. Racionalizaram que ele não merecia o dinheiro de volta ou que seria para compensar o fato de terem sido tratados mal. Você pode ver este tipo de comportamento em ação em uma pessoa que rouba no trabalho porque não se sente bem paga. Ou talvez sua ex-namorada fosse uma completa babaca quando terminaram e ao te perguntar se o colar dela esta na sua casa você mente dizendo que não o viu. Ou talvez você traia sua esposa porque sente que ela é frígida sexualmente e deixa a desejar. É fácil justificar um ato desonesto quando você sente que alguém te deve alguma coisa ou foi injustiçado. Você poder ser levado a racionalizar que está apenas equilibrando a balança, mas por acaso dois erros fazem um acerto?

O reino onde devemos estar especialmente vigilantes sobre como aumentar nossa consciência de nossas ações é o virtual. O mundo virtual pode fazer tudo o que fazemos parecer nebuloso e abstrato. Na comunicação com amigos e ainda mais com estranhos aparecem enormes distancias entre nosso comportamento e seus efeitos reais. Muitas vezes esquecemos que tem um ser humano real sentado atrás da tela que você esta digitando. Aqui novamente ajuda imaginar-se fazendo na vida real o que esta fazendo online. Poderia sua habilidade de justificar seu comportamento virtual evaporar se você estivesse fazendo a mesma coisa no mundo real? Você até poderia se sentir bem flertando uma mulher que não seja sua esposa por mensagem instantânea, mas como seria dizer as mesmas coisas para uma desconhecida em um bar? E se sua esposa estivesse bem ali? Ofender e atacar uma pessoa em um fórum na internet pode fazer sentir-se inofensivo, mas você consegue se imaginar dizendo as mesmas coisas olhando nos olhos da pessoa? Dizer coisas online que você jamais diria a uma pessoa, constitui uma falha na retidão e na consciência necessária de um homem de integridade.

Conclusão

Devemos sempre lembrar que somos todos especialistas em criar justificativas para um comportamento desonesto quando esse comportamento serve aos nossos interesses. E quanto maior a distância que existe entre um ato imoral e suas consequências, mais fácil é gerar essas racionalizações. Somos tão hábeis em camuflar nossos atos desonestos sobre o disfarce de aceitabilidade que poderemos nunca os reconhecer pelo que de fato são, e muitas vezes iremos lutar com unhas e dentes para defender nossas justificativas.

Assim, viver com integridade exige autoexame franco e sincero e autoconhecimento. Quais são as suas verdadeiras motivações e intenções? Quais são as consequências de suas ações e a quem irão afetar? Reforçar o seu jogo mental e construir este tipo de consciência não é fácil. Trata-se de sintonizar-se com aquela vozinha irritante em sua mente que diz: "Espere um minuto, isso não está certo." Em vez de ignorá-la, anote o que essa voz diz em um caderno de bolso. Talvez vê-la em palavras a torne mais real e encurte essa distância entre ação e consequência. Ou considere a ajuda de um amigo ou outra pessoa que se importe e a quem você possa enviar um texto no momento em que sentir uma pontada de culpa chegando. Expressar para outras pessoas certamente tornará isso mais real.



Parte 3:
COMO PARAR A PROPAGAÇÃO DO VÍRUS DA IMORALIDADE

Bem-vindo a nossa terceira parte da serie sobre o que enfraquece a nossa integridade e como fortalecê-la. Até agora vimos como nós decidimos cometer um ato desonesto e como a distância entre o ato e suas consequências podem aumentar a nossa capacidade de racionalizar a imoralidade como comportamento aceitável.

Agora vamos discutir outro fator importante que influencia o nosso nível de conforto com as decisões desonestas: ver outras pessoas fazê-las.

Desonestidade como um contágio social

Como o professor de psicologia Dan Ariely explorou a natureza e motivações para cometer atos de desonestidade, ele viu-se perguntando se poderia ser propagado de pessoa para pessoa, como um contágio social, um "vírus da imoralidade". Se as pessoas vissem alguém do seu mesmo grupo trapaceando, os tornariam mais propensos a trapacear também?

Para responder a essa pergunta, Ariely mais uma vez voltou para o teste inicial que comentamos nos estudos anteriores: Em uma sala de aula, estudantes universitários recebem 20 equações matemáticas para resolver em 5 minutos e são pagos por cada acerto. Particularmente para esse experimento, cada membro do grupo de controle recebeu um envelope com dinheiro juntamente com uma folha de cálculo. Quando um participante terminava, ele verificava quantos acertos conseguiu e retirava de dentro do envelope a quantia adequada. Em seguida, ele levava sua prova até o experimentador que analisava as respostas e conferia quanto sobrava de dinheiro dentro do envelope antes de mandar o participante embora.

No experimento que eles rasgavam as provas e permitia a condição ideal para fazer trapaças, um participante verificou suas respostas, rasgou sua prova, retirou todo dinheiro no envelope, colocou o envelope no lugar sem deixar qualquer quantia e sem interagir uma vez se quer com o experimentador que estava com a cara enterrada em um livro grosso e saiu da sala.

Por fim, alguns participantes foram colocados no que foi chamado de "Condição de Madoff" (N. do T.) Tudo foi feito da mesma forma que na versão do teste em que podiam picar os papeis, porém apos um minuto em que iniciaram a prova, um ator e cumplice do experimentador que estava fingindo ser apenas mais um participante, se levantou e disse: "Eu terminei, o que devo fazer agora?" Ficaria claro para os outros estudantes que ele era um trapaceiro, pois não havia forma alguma de alguém resolver 20 equações em apenas 60 segundos. O experimentador respondia que ele poderia então rasgar sua prova e então o aprendiz de Madoff poderia pegar seu dinheiro no envelope. Em seguida, novamente ele falava em auto e bom som para que todos escutassem: Eu acertei tudo e o envelope ficou vazio, o que faço com ele? Ao que o experimentador respondia: Coloque o envelope vazio dentro da caixa e você está liberado pra ir embora. Feito isso, o ator deixaria a sala acenando com um sorriso de satisfação.

Então, teriam os participantes do experimento em Condição de Madoff, vendo que era possível levar todo o dinheiro para casa sem esforço ou consequências, sentirem-se motivados a enganar mais? Ou eles ficam chateados ao ver alguém sendo tão desonesto e dessa forma enganam menos?

Eles trapaceiam mais. Muito mais, como se pode ver. Participantes do experimento em Condição de Madoff, em media, alegaram terem resolvido três vezes mais equações do que na condição de rasgar a prova e receber pelos acertos e oito vezes mais do que no grupo de controle. "Em suma", escreve Ariely, "Os que estavam na Condição de Madoff pagaram a si mesmos o equivalente a quase o dobro de acertos que eles de fato deveriam receber".

O que esta na raiz de um pequeno aumento tão substancial na trapaça? Seria porque agora os outros participantes foram simplesmente induzidos pelo fato de que eles poderiam trapacear e sair ilesos? Ariely em seguida fez um novo experimento para testar essa teoria. Agora teria uma "Condição de pergunta". Ao receberem as instruções, o ator perguntaria ao experimentador em voz alta: “Já que é assim, não poderia simplesmente dizer que resolvi tudo e ir embora com todo o dinheiro? Posso fazer isso?” E o experimentador responderia: "Você pode fazer o que quiser". Nessa situação o ator não sairia mais cedo como na condição anterior. Resumidamente, os participantes receberam a confirmação de que eles poderiam trapacear sem consequências, mas não viram o exemplo de alguém fazendo isso. O resultado? Os participantes nessa "Condição de pergunta" alegaram que acertaram 5 equações a menos do que no grupo "Condição de Madoff".

Assim, o aumento da trapaça não era devido ao fato dos participantes simplesmente fazerem uma analise racional de custo-benefício de riscos versus recompensa. Em vez disso, o que Ariely tinha descoberto foi o componente social insidioso da desonestidade e a forma que ela de fato se espalha como uma infecção. "Em muitas áreas da vida, temos que olhar para os outros e aprender o que são comportamentos adequados e inadequados", Ariely teoriza. "Desonestidade pode muito bem ser um dos casos em que as normas sociais que definem o comportamento aceitável não estão muito claras e o comportamento dos outros pode vir a moldar nossas ideias sobre o que é certo e errado." Em outras palavras, testemunhar alguém do nosso grupo social ser desonesto pode potencialmente "calibrar nossa bussola moral interna.”.

N. do T. Bernard Lawrence "Bernie" Madoff foi o presidente de uma sociedade de investimento que tem o seu nome e que fundou em 1960. Esta sociedade foi uma das mais importantes de Wall Street. Madoff, também foi uma das principais figuras da filantropia. Em Dezembro de 2008 Madoff foi detido pelo FBI e acusado de fraude. Suspeita-se que a fraude tenha alcançado mais de 65 bilhões de dólares, o que a torna numa das maiores fraudes financeiras levadas a cabo por uma só pessoa. Fonte: wikipedia.org

Como se vacinar contra o vírus da imoralidade

Escolha com sabedoria seus amigos e companheiros. Todo homem gosta de olhar a si mesmo como um lobo completamente independente e solitário que é imune a pressão dos demais. Essa autonomia pode ser um ideal digno, mas a pesquisa sobre o assunto mostrou que, de um jeito ou outro, somos todos influenciados por aqueles com quem estamos cercados. Estudos já demonstraram que os nossos companheiros e parentes queridos afetam nosso humor e estado de espirito. E agora sabemos que eles podem desempenhar um papel na mudança da agulha de nossa bússola moral também.

É perfeitamente possível conviver com pessoas que tem padrões morais muito mais baixos que os seus e ainda assim manter o seu. É apenas mais difícil. Nadar contra a corrente se torna cansativo e você corre o risco de, eventualmente, decair e começar a aceitar os padrões mais baixos como seu novo normal. Enquanto que se você se cercar de amigos que compartilham de seus elevados padrões morais, permanecer íntegro e reto torna-se muito mais fácil.

Tornar-se membro de um grupo honrado. Ariely argumenta que quanto mais você tem consideração pela pessoa que você vê sendo desonesta dentro do mesmo grupo social, mais elas podem influenciar suas ideias de certo e errado. Em algum lugar no subconsciente você pensa: "Eles são como eu e eles acham que fazer isso está certo, então talvez seja bom eu fazer isso também". Ficamos ainda mais vulneráveis quando o exemplo de mau comportamento vem de uma figura de autoridade a quem respeitamos como um pai, treinador ou pastor que deveriam ser mentores, não são como nós. Eles são as pessoas que queremos nos tornar e olhar para seus exemplos.

Porém, a coisa realmente interessante é que isso também se aplica no sentido oposto, vendo alguém que consideramos fora do nosso grupo social agir de forma imoral pode servir de inspiração para sermos melhor.

Em uma das versões mais interessantes do estudo descrito acima, ao invés do ator/cumplice ser alguém que se vestia como os outros estudantes, ele usava um uniforme de uma escola rival. Nessa que foi chamada de "Condição Rival-Madoff", os participantes afirmaram acertar seis equações a menos que no grupo Madoff original. Quando vemos alguém cometendo más ações a quem consideramos pertencer a um grupo social diferente e moralmente inferior ao nosso, somos lembrados de que nós não queremos ser como eles e aumentamos nosso bom comportamento a fim de distanciarmos nossa identificação com eles.

Grupos honrados são essencialmente a premissa deste principio: o grupo compara-se a outros grupos e se considera melhor / mais forte / mais moral do que qualquer outro. O grupo disputa para manter essa reputação e os membros se policiam uns aos outros para manter o padrão que irão reforçar sua pretensão de orgulho. Esse tipo de mentalidade de "nós contra eles" não é muito popular nos dias de hoje, mas acredito que possa ser instintivamente bastante saudável para trazer para fora o melhor que há em nós.

Conhecer e ser firme em seu código de honra. Enquanto todos nós podemos ser influenciados por nossos amigos em diferentes graus, quanto mais claros e firmes somos com nossos princípios e normas, menos influenciados seremos pelas ações e exemplos dos outros. O seu código de honra pessoal é vago e frouxo ou é definido em uma base solida e tão claro como o sol do meio-dia? Você já parou para refletir sobre os seus princípios? Você sabe como e por que você chegou a abraça-los ou são crenças que não foram examinadas que você tem absorvido a partir de sua educação e cultura?

Se você esta entre os membros do seu grupo honrado ou distantes daqueles que não compartilham seus valores, seu código de honra pessoal irá atuar como uma fonte constante de direcionamento para que você haja como o mesmo homem onde quer que vá e com quem quer que se encontre.

Será inútil ter um código de honra pessoal claro a menos que propositalmente e regularmente você se lembre dele. Falaremos muito mais sobre isso na ultima parte da série.

Impedindo a propagação do contágio na sociedade

Integridade não é simplesmente uma virtude pessoal, mas social também. Na verdade, não há nenhuma outra virtude em que o cultivo pessoal de um indivíduo tenha maior efeito sobre a sociedade como um todo. A teoria do contagio social explica o por quê. Quando uma pessoa decide agir de forma antiética, seu exemplo pode influenciar alguém a fazer o mesmo resultando em um efeito dominó que reduz os padrões de um grupo cada vez maior de pessoas. Ou como Ariely coloca:

"Transmitido de pessoa para pessoa, a desonestidade tem um efeito lento, daninho e corrosivo. Como o "vírus" que sofre mutação e se espalha de um para o outro, um novo código, menos ético de conduta se desenvolve. E embora seja sutil e gradual, o resultado final pode ser desastroso. Este é o custo real de trapacearmos até nas menores coisas e a razão pela qual nos devemos estar mais vigilantes em nossos esforços para reduzir nem que sejam as pequenas infrações.”.
O vírus da desonestidade não é uma ideia abstrata. Pense na corrupção que parece estar correndo desenfreadamente em nosso governo e economia. Certamente começou com alguns indivíduos que estavam dispostos a ceder aos deslizes. Os que estavam em volta deles viram que essa era uma nova norma e passaram a adotar os mesmos padrões. Quando novas pessoas entraram para o time, eles adotaram o que se tornou a cultura padrão do empreendimento. Mesmo os "médicos" que prometem entrar e limpar as coisas acabam infectados pela mesma doença que supostamente ele deveria curar.

Isso não precisa ser em uma escala tão grande também. Considere um estudante que faz download ilegal de músicas. Ele pode ter pensado que ele tinha uma postura moral forte sobre o assunto, mas em seguida vê seus amigos fazendo isso e não serem pegos. Ele pode dizer para si mesmo que vai ser apenas uma música ou um álbum... Mas em seguida toda a sua coletânea de musicas é fruto de downloads ilegais. Seu irmãozinho cresce pensando que é assim que se conseguem novas músicas e influencia seus amigos a piratear coisas também e o comportamento se espalha.

Ariely argumenta ainda, que a corrupção e desonestidade de figuras públicas tem um efeito desproporcional sobre o nível de integridade geral da sociedade, com seus odiosos exemplos se espalhando para muitas pessoas. É por isso que é difícil dizer se os tempos em que vivemos são mais corruptos do que antes ou se a incansável mídia sensacionalista simplesmente atrai mais atenção para o tipo de corrupção que sempre existiu, já que muita atenção pode realmente conduzir a mais corrupção! Nós talvez estejamos presos em um ciclo muito destrutivo.

O que podemos fazer para quebrar esse ciclo?

Divulgar e destacar historia de pessoas que estão fazendo a coisa certa. Ariely argumenta que dar mais atenção a bons exemplos é eficaz porque a moralidade é contagiante da mesma forma que a desonestidade é. "Com exemplos mais marcantes e vívidos de comportamento louvável nos seremos capazes de melhorar o que a sociedade vê como comportamentos aceitáveis ou indesejáveis e, finalmente, melhorar nossas ações". Pense um pouco naqueles comerciais bregas onde uma pessoa vê outra fazendo uma coisa boa, que inspira outra a fazer uma coisa boa e assim desencadeia uma longa cadeia de comportamentos positivos um verdadeiro remake de Pay It Forward (Corrente do Bem, filme norte-americano de 2000 dirigido por Mimi Leder). Fazer o bem não é o tipo de coisa que sai na primeira capa do maior jornal do país, mas nos dias de mídias sociais todos podem fazer sua parte e desempenhar um papel no compartilhar de histórias pequenas, muitas vezes locais, que poderiam passar despercebidas, sobre pessoas que são a própria encarnação da integridade. Dê uma olhada em seus hábitos e desafie-se a passar 30 dias compartilhando e-mail, postagens etc. somente com historias positivas ao invés das que mais frequentemente capturam nossa atenção.

Big brother Cães pastores estão de olho em você. Professores da Universidade de Newcastle decidiram realizar um experimento informal dentro da cozinha da faculdade. A cozinha oferecia chá, café e leite para professores e funcionários e pediu que aqueles que tomassem uma bebida contribuíssem com um pouco de dinheiro para uma "caixa da honestidade" colocada sobre o balcão. Acima da caixa os pesquisadores penduraram por cinco semanas uma foto com imagens de flores e nas outras cinco semanas uma foto com a imagem de dois olhos observando as pessoas que tomavam sua bebida. Quando contaram o dinheiro posto na caixa, os pesquisadores descobriram que as pessoas tinham retrocedido massivamente três vezes mais quando a imagem dos olhos estava pendurada do que quando as flores estavam no lugar.

Ariely queria ver se alguém observando de verdade teria o mesmo efeito de indução de honestidade. Assim, mas uma vez ele voltou para o experimento em que rasgavam as provas das equações. Desta vez, os participantes trabalharam em pares. Enquanto um parceiro resolvia as equações o outro observava e então eles invertiam os papéis. Uma vez terminado os testes eles iriam destruir suas provas juntos e escrever suas notas no mesmo pedaço de papel, somá-las e receber o pagamento com base no desempenho em conjunto. Eles fizeram tudo isso sem falar um com o outro. Qual foi a taxa de trapaça nessa condição de experimento? Zero. Ninguém trapaceou quando sabiam que alguém os estava observando.

Pode-se olhar para o resultado de tais experiências e dizer que é de mais vigilância que precisamos e devemos ter mais câmeras de vídeos, escutas de telefone, inspetores e vigias. Mas estas coisas tornam-se necessárias somente quando uma sociedade falhou no sistema mais efetivo e menos obrigatório: simplesmente assistindo uns aos outros chamando por mais comportamentos imorais. Desenvolvemos em nós uma atitude de "não vi nada, sei de nada" , achando que não devemos nos importar com o que outras pessoas estão fazendo, devemos olhar para o outro lado e cuidar da nossa própria vida. Embora seja um guia altamente motivador do comportamento do ser humano, nos sentimos desconfortáveis e envergonhados pelos erros dos outros.

Adotamos uma mentalidade em nome da liberdade pessoal, no entanto o resultado foi a construção de mais controles externos de redução de liberdade projetados para verificar a desonestidade em uma sociedade com ausência de honra. Tais regras e vigilâncias podem atuar como uma linha de ultima defesa de precaução, mas elas não são realmente eficazes. Quando as pessoas sabem que estão sendo observadas por outras e não tem medo de serem advertidas e punidas pelos seus atos, elas vão tentar tirar o máximo de proveito possível e contornar as regras muitas vezes ineficazes o quando puderem. Aqueles que são honestos (por enquanto) veem a isso tudo e temem que se não comece a falsificar coisas também serão deixados para trás. Logo, mais e mais pessoas sentirão que devem adentrar a uma zona cinzenta de moralidade para ir mais longe (e eles podem estar certos).

Com relação a aqueles que comprometem a sua ética, sabendo o quão longe eles chegam além do limite, Ariely encontrou em seus estudos que quando você está sendo desonesto, você está mais propenso apensar que todos os demais também o são. A confiança se quebra, cinismo e desconfiança aumentam. Sem a graxa da confiança, as rodas da sociedade enguiçam, nada é feito e a sociedade deixa de ser um lugar que proporciona a plena felicidade e prosperidade dos seus membros.

Muito melhor seria se mais pessoas estivessem simplesmente mais dispostas a observar um ao outro e que levantassem e falassem para quebrar este ciclo depressivo. Muito melhor seria se nós nos tornarmos uma nação de "cães pastores", e a vigilância desencorajasse os delitos antes de começarem.

Conclusão

Há uma opinião popular hoje em dia, que ridiculariza a ideia de que as decisões e comportamentos de um indivíduo poderiam ter efeito sobre o comportamento dos outros. Mas o que a pesquisa cientifica sobre o assunto nos diz é que essa opinião é de fato ridícula por não perceber que as ações de cada pessoa tem um efeito cascata que quase sempre sutilmente influencia os outros e influencia a cultura no geral. Nós não podemos vê-lo com nossos próprios olhos ou em tempo real e é claro que ninguém é consciente de como essas ondulações nos afetam. Assim como no experimento inicial ninguém conscientemente pensou: "Esse cara está enganando... ele é muito parecido comigo... eu acho que está tudo certo se eu trapacear nas coisas um pouco mais..." Não. Tudo acontece ao nível do subconsciente. Isto certamente deve nos fazer parar e nos levar a refletir sobre nosso próprio comportamento. Que sinais você esta enviando diariamente? Você é um homem cujo exemplo está fazendo esse mundo melhor... Ou pior?

Parte 4:
O PODER DE LEMBRETES MORAIS

Na primeira parte desta serie, discutimos o conceito de "Pirâmide da escolha" e a maneira pela qual um primeiro passo desonesto pode levar uma pessoa em um caminho de crimes cada vez mais graves que eventualmente os leva longe de seus princípios originais.

No entanto uma ou mesmo varias escolhas ruins não fazem a maioria de nos deslizar pelo caminho da depravação ou da sarjeta da corrupção total. Ao invés disso, muitas das vezes fazemos algumas escolhas ruins, mas logo decidimos nos endireitar e voltar ao caminho.

O que verifica o nosso comportamento e nos leva a parar o processo? O que determina o quão longe nós viajamos pelo caminho da desonestidade antes de decidir voltar?

Parte do problema é o nosso desejo de alcançar o equilíbrio, conforme falamos anteriormente, entre a vontade de se beneficiar de um ato desonesto, mas sendo ainda capaz de se ver como uma pessoa boa. Ao cometer muitos crimes a nossa autoimagem positiva poderá começar a se comprometer e deteriorar nossa consciência, levando-nos a trocar um caminho de volta por um lugar onde não se sinta um crápula.

No entanto, as pessoas parecem chegar a esse ponto de conversão em diferentes distâncias ao longo do caminho da desonestidade e você provavelmente já cometeu deslizes por longos ou curtos períodos durante diferentes momentos da sua vida. Então, nós ainda ficamos com a questão do que poder ser responsável por essas variações.

A resposta, pelo menos parcialmente, são lembretes morais, uma lista de controle que ajuda você a se lembrar de suas normas. O número e a regularidade das lembranças morais em sua vida podem determinar se muito raramente você sai do caminho da integridade, e quando sai volta rapidamente, ou se você se encontra no fundo do poço da imoralidade, sem saber como é que foi parar tão longe.

O poder dos lembretes morais

Em sua pesquisa sobre a natureza da integridade, o professor de psicologia Dan Ariely não queria apenas descobrir o que faz as pessoas mais propensas a enganar, mas também o que funcionou para manter as mesmas pessoas honestas.

Para descobrir o que pode ser um propulsor de integridade eficaz, ele retornou mais uma vez ao seu testado e verdadeiro experimento inicial e a condição que permitia fraude. Desta vez ele dividiu os participantes em dois grupos. Antes de começarem a prova ele pediu a um grupo que pensasse em dez livros que eles tenham lido no ensino médio e para o outro grupo ele pediu que pensassem nos dez mandamentos. Quando os resultados foram computados após o teste, o primeiro grupo havia demonstrado "a mesma típica, mas generalizada trapaça" que havia sido encontrada em condições anteriores do experimento. Mas para o grupo que se lembrou dos dez mandamentos antes de iniciar suas equações, a taxa de fraude foi de 0%. Apesar do fato de ninguém no grupo ser capaz de se recordar de todos os dez mandamentos, um simples lembrete sobre moralidade bem antes da oportunidade de trapacear, efetivamente frustrou a tentação.

O que é interessante é que quando Ariely realizou outro experimento, desta vez com um grupo de ateus autodeclarados jurando sobre a Bíblia antes de iniciar o experimento, eles não enganaram em todas as respostas também. Ariely concluiu que lembretes morais são eficazes mesmo que especificamente não façam parte de seu sistema de crença pessoal.

Ele encontrou resultados semelhantes quando testou a eficácia dos lembretes morais de uma maneira diferente. Desta vez, ele pediu a alunos das universidades de Massachusetts e de Yale que assinassem uma declaração antes de fazer o experimento onde estava escrito "entendo que esta experiência se enquadra nas diretrizes do código de honra Massachusetts / Yale" O ato de assinar a declaração também resultou em zero trapaça e isso foi verdadeiro embora as universidades não tenham realmente um código de honra. O que importa é que o aluno teve que submeter-se a um pequeno ritual em que seu cérebro pensou sobre moralidade bem antes de ter seu senso moral desafiado.

Assim Ariely concluiu essa linha de pesquisa: "recordar padrões morais no momento da tentação pode fazer maravilhas para diminuir comportamentos desonestos e potencialmente preveni-los completamente"

Esquecimento de virtude e a regularidade necessária de lembretes morais

O problema com a natureza humana é que todos nós estamos sujeitos ao que poderíamos chamar de "esquecimento de virtude." Nossos princípios e valores (a visão que temos do homem que queremos ser) não estão o tempo todo na vanguarda de nossa mente sempre prontos para influenciar nossas escolhas. Em vez disso, nossas mentes estão tão ocupadas processando os nossos problemas e preocupações que questões filosóficas acabam armazenadas nas trincheiras de reserva, ao invés de na linha frente. É por essa razão que lembretes morais são tão eficazes e necessários em nossas vidas, pois eles agem como sinais em nosso ambiente que convocam pensamentos sobre os nossos valores do fundo de nossas mentes para frente, onde eles podem influenciar nossos comportamentos e nos levarem a suportar as tentações.

Receber um lembrete moral de vez enquanto não é o suficiente, a regularidade é fundamental. Ariely constatou essa verdade quando teve estudantes de Princeton participando do experimento. Ao contrario dos estudantes de Massachusetts e Yale, Princeton possui seu próprio código de honra. O calouro deve assinar quando ele se matricula e participa de palestras e discussões sobre o código quando chegam ao campus. Querendo saber se o condicionamento em ética teria um efeito de longo prazo sobre o comportamento, Ariely testou um grupo de estudantes de Princeton duas semanas apos firmar o compromisso com o código de honra. Mas os alunos ainda enganaram na mesma taxa media dos outros experimentos. Somente quando eles tiveram que assinar o mesmo compromisso de honrar o código de honra antes do teste, que a trapaça caiu para zero também.

Assim, vemos que se tornar um homem de integridade não é como andar de bicicleta; você não aprende a fazer uma vez e em seguida espera guiar essa convicção ética como se fosse um comportamento automático para o resto da vida. Em vez disso, agir com integridade é algo que você tem que decidir fazer vez apos outra e os lembretes morais reforçam seu compromisso, quanto mais você se depara com esses lembretes, mais fácil é se de manter no caminho correto.

Como estabelecer lembretes morais em sua vida

Acredito que o fato do esquecimento de virtudes ser um padrão universal, se reflete em que todas as religiões do mundo, embora com suas doutrinas variadas, empregam lembretes morais para lembrar as pessoas o caminho reto e estreito. Prescrições para orar várias vezes ao dia e frequentemente estudar uma escritura são verdadeiros chamados para participar regularmente de lembretes morais que ritualmente reforçam a fé e o código de comportamento.

Para os seguidores de algumas religiões, estes lembretes morais podem ser bastante concreto e íntimo como Ariely demonstra ao recontar a historia no Talmud sobre um homem religioso que se torna desesperado por sexo e procura por uma prostituta:

"Sua religião não iria tolerar isso, é claro, mas no momento ele sente que tem necessidades mais urgentes. Uma vez a sós com uma prostituta ele começa a se despir. Quando ele tira a camisa ele vê seu Tzitzit, um cordão usado no corpo com franjas amarradas que servem como meio de lembrança dos mandamentos de Deus. Vendo o Tzitzit ele se lembra do Mitzvá (Obrigações religiosas) e ele rapidamente se vira e sai da sala sem violar suas normas religiosas."
No entanto, lembretes morais não são apenas para os teístas. Os ateus vão argumentar que eles podem ter tanta moralidade quanto qualquer pessoa religiosa. A moralidade de um ateu deve ser guardada, cultivada e fortalecida como qualquer outra pessoa.

Há muitas maneiras de criar lembretes morais seculares que podem ser eficazes para o ateu em busca de integridade, bem como servir de suprimentos adicionais para os teístas que já praticam reforços religiosos tradicionais como orações, estudos de escrituras e cultos mensais. A coisa mais simples a fazer é tentar lembrar conscientemente de seus padrões morais antes de se deparar com uma tentação, assim como os alunos que pensavam sobre os dez mandamentos no experimento. Claro que na vida real, muitas vezes não sabemos quando a tentação virá e no calor do momento podemos não ser capazes ou não querermos invocar os nossos princípios em nossa mente. Por essa razão, você deve cultivar de forma embutida os lembretes morais que você poderá encontrar todos os dias sem muito esforço.

“A verdade é impressa com muito mais força na mente quando acompanhadas por ilustração, exemplos, contos, desenhos ou imagens. Quando a mera declaração de verdade é abstrata, pode falhar em resultados. A ilustração vem como um auxílio da verdade, ela fica impressiona e fixa o pensamento na mente". Henry F. Kletzing, Traits of Character, 1899
Primeiramente eu recomendo pendurar quadros artísticos na parede - especialmente nas portas pelas quais você passa antes de sair para o trabalho ou escola e que os façam lembrar-se dos seus padrões e que homem você quer ser a cada dia. Aqui estão alguns exemplos que temos pendurados em nossa casa:

No sentido horário: 1) Afirmação diária de Benjamim Franklin "Qual boa ação farei hoje?" 2) Ilustração de um livro americano do séc. 19 sobre caráter. 3) Uma canção popular da Segunda Guerra Mundial que me faz lembrar de viver de acordo com os valores do meu avô.

Em segundo lugar, considerar a criação de um manifesto pessoal e lê-lo todos os dias. Você também pode reduzi-lo em um cartão plastificado que você pode carregar em sua carteira ou bolso e rever regularmente.

Outra ideia é usar uma peça de joia ou acessório que te lembre de seus padrões. Este poderia ser um item com simbolismo religioso ou um relógio que seu integro avô te deu. Se você usa-lo todos os dias, porém, poderá acabar se tornando algo trivial. Tire um tempo para manuseá-lo e pensar conscientemente sobre seu significado.

Mesmo algo como uma tatuagem que você sempre olhe, pode servir de lembrete moral de quem você quer ser.

Existem também algumas outras coisas menores e mais simples que você pode fazer para permanecer no caminho. Mantenha post-its em seu computador com algum tipo de frase ou motivação para o dia. Use uma foto de sua parceira/ pessoa amada/ familiar como plano de fundo do seu telefone para que você sempre se lembre da razão pela qual você esta tentando ser um homem de virtude. Carregue em seu bolso um pequeno caderno de anotações para anotar qualquer deslize que você possa cometer, o simples ato de escrevê-la coloca seu cérebro em estado de alerta. Seja criativo nesse esforço e encontre o que funciona para você.

Empregar lembretes morais é especialmente importante quando você estiver longe de casa. Ariely teoriza que estamos mais propensos a se envolver em comportamentos desonestos quando estamos em uma viagem, já que estamos fora de nossa rotina diária, longe dos olhos daqueles que nos assistem e as regras sociais não estão tão claras. Por essas razões enquanto não houver estatísticas sobre quantas vezes a infidelidade ocorre em viagens de negócios e afins, a percepção popular sobre isso é que não está indo muito além dos limites. Então, se você quiser permanecer fiel enquanto viaja mundo a fora não se esqueça de carregar na bagagem alguns lembretes morais. Meditar sobre o significado desses lembretes, pendurar um quadro com dizeres morais no quarto de hotel e não retirar a aliança do dedo - isso não é apenas um movimento literal para sinalizar a sua disponibilidade, é um impulso psicológico para se livrar de um lembrete moral que talvez te impeça de seguir em seu desejo de enganar.

Pressionar o botão Reset

Lembretes morais não vão forçá-lo a fazer a coisa certa. Eles são apenas postos de controle, onde esperamos que você vá ser solicitado a parar e refletir sobre seus valores, o que lhe dá a força para resistir à tentação. Mas você também pode escolher boicotá-los.

Então, o que fazer se você nunca fez lembretes morais para si mesmo ou recentemente optou por não dar ouvidos a eles e já se encontra suficientemente longe no caminho da desonestidade (tendo talvez até chagado ao ponto do "Que se dane" e esteja realmente entregue) e se sentindo realmente infeliz e desejando encontrar novamente um caminho de volta para o homem que você gostaria de ser?

Assim como não é de surpreender que todas as religiões promovam lembretes morais a seus adeptos, também não é de se estranhar que todas as religiões ofereçam oportunidade de arrependimento ou renovação.

O Adventista tem o sábado semanal, os Católicos o sacramento da confissão, os Judeus o Yom Kipur e os Muçulmanos o Ramadã. Esses rituais permitem que as pessoas tenham a chance de apertar o botão de "reset" em sua vida e iniciar tudo outra vez com um novo começo.

Tal como acontece com lembretes morais, o fato de não ser religioso não significa que você não precise de rituais de renovação assim como qualquer ser humano falível. Há eventos seculares que podem ser usados como pontos de virada psicológicos da mesma forma: os aniversários, ano novo, mudanças, términos de relacionamento, novos empregos e assim por diante. E você pode intencionalmente criar seus próprios momentos regulares de renovação como um acampamento em uma viagem de ferias de meio de ano onde você pode tirar um tempo para refletir sobre os erros que fez e comprometer-se a fazer melhor nos próximos seis meses. Crie seus próprios rituais como escrever sobre seus arrependimentos e joga-los na fogueira e os observe queimar.

Conclusão Final

Esperamos que você tenha gostado e extraído algo dessa serie de estudos sobre integridade. A pesquisa de Ariely sobre o assunto não oferece todas as respostas para a natureza da moralidade, mas sentimos que era um ponto de partida para a fascinante criação de uma reflexão pessoal e discussão em grupo.

Enquanto a mídia muitas vezes se concentra em grandes problemas de corrupção dos nossos tempos e os políticos debatem a melhor forma de resolvê-los com as normas e leis em geral, a solução para o estabelecimento de uma sociedade mais honesta pode estar muito mais perto de casa. Se cada homem se comprometer a viver um padrão mais elevado de integridade e eles se esforçarem para não comprometer a integridade até mesmo nas pequenas coisas e estabelecer um exemplo que inspire outros a segui-lo, nossas casas, bairros e nação lentamente se tornarão um lugar melhor para todos. Nosso mundo nunca será perfeito seja individualmente ou socialmente, mas por que não fazer o que pudermos, onde quer que seja para torna-lo um lugar melhor agora e para aqueles que virão depois de nós?
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

DOS FICANTES AOS NAMORIDOS


por Martha Medeiros.

Se você é deste século, já sabe que há duas tribos que definem o que é um relacionamento moderno.

Uma é a tribo dos ficantes. O ficante é o cara que te namora por duas horas numa festa, se não tiver se inscrito no campeonato “Quem pega mais numa única noite”, quando então ele será seu ficante por bem menos tempo — dois minutos — e irá à procura de outra para bater o próprio recorde. É natural que garotos e garotas queiram conhecer pessoas, ter uma história, um romance, uma ficada, duas ficadas, três ficadas, quatro ficadas... Esquece, não acho natural coisa nenhuma. Considero um desperdício de energia.

Pegar sete caras. Pegar nove “mina”. A gente está falando de quê, de catadores de lixo? Pegar, pega-se uma caneta, um táxi, uma gripe. Não pessoas. Pegue-e-leve, pegue-e-largue, pegueeuse, pegue-e-chute, pegue-e-conte-para-os-amigos.

Pegar, cá pra nós, é um verbo meio cafajeste. Em vez de pegar, poderíamos adotar algum outro verbo menos frio. Porque, quando duas bocas se unem, nada é assim tão frio, na maioria das vezes esse “não estou nem aí” é jogo de cena. Vão todos para a balada fingindo que deixaram o coração em casa, mas deixaram nada. Deixaram a personalidade em casa, isso sim.

No entanto, quem pode contra o avanço (???) dos costumes e contra a vulgarização do vocabulário? Falando nisso, a segunda tribo a que me referia é a dos namoridos, a palavra mais medonha que já inventaram. Trata-se de um homem híbrido, transgênico.

Em tese, ele vale mais do que um namorado e menos que um marido. Assim que a relação começa, juntam-se os trapos e parte-se para um casamento informal, sem papel passado, sem compromisso de estabilidade, sem planos de uma velhice compartilhada — namoridos não foram escolhidos para serem parceiros de artrite, reumatismo e pressão alta, era só o que faltava.

Pois então. A idéia é boa e prática. Só que o índice de príncipes e princesas virando sapo é alta, não se evita o tédio conjugal (comum a qualquer tipo de acasalamento sob o mesmo teto) e pula-se uma etapa quentíssima, a melhor que há.

Trata-se do namoro, alguns já ouviram falar. É quando cada um mora na sua casa e tem rotinas distintas e poucos horários para se encontrar, e esse pouco ganha a importância de uma celebração.

Namoro é quando não se tem certeza absoluta de nada, a cada dia um segredo é revelado, brotam informações novas de onde menos se espera. De manhã, um silêncio inquietante. À tarde, um mal-entendido. À noite, um torpedo reconciliador e uma declaração de amor.

Namoro é teste, é amostra, é ensaio, e por isso a dedicação é intensa, a sedução é ininterrupta, os minutos são contados, os meses são comemorados, a vontade de surpreender não cessa — e é a única relação que dá o devido espaço para a saudade, que é fermento e afrodisíaco. Depois de passar os dias se vendo só de vez em quando, viajar para um fim de semana juntos vira o céu na Terra: nunca uma sexta-feira nasce tão aguardada, nunca uma segunda-feira é enfrentada com tanta leveza.

Namoro é como o disco “Sgt. Peppers”, dos Beatles: parece antigo e, no entanto, não há nada mais novo e revolucionário. O poeta Carlos Drummond de Andrade também é de outro tempo e é para sempre. É ele quem encerra esta crônica, dando-nos uma ordem para a vida: “Cumpra sua obrigação de namorar, sob pena de viver apenas na aparência. De ser o seu cadáver itinerante".
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DESMISTIFICANDO O BODE DA MAÇONARIA

Dentro da nossa organização, muitos desconhecem o nosso apelido de bode. A origem desta denominação data do ano de 1808. Porém, para saber do seu significado temos necessidade de voltarmos no tempo. Por volta do III ano d.C. vários Apóstolos saíram para o mundo a fim de divulgar o cristianismo. Alguns foram para o lado judaico da Palestina. E lá, curiosamente, notaram que era comum ver um judeu falando ao ouvido de um bode, animal muito comum naquela região. Procurando saber o porquê daquele monologo foi difícil obter resposta. Ninguém dava informação, com isso aumentava ainda mais a curiosidade dos representantes cristãos, em relação aquele fato. Até que Paulo, o Apóstolo, conversando com um Rabino de uma aldeia, foi informado que aquele ritual era usado para expiação dos erros. Fazia parte da cultura daquele povo, contar alguém da sua confiança, quando cometia, mesmo escondido, as suas faltas, ficaria mais aliviado junto a sua consciência, pois estaria dividindo o sentimento ou problema.´

Mas por que bode? Quis saber Paulo. É por­que o bode é seu confidente. Como o bode nado fala, o confesso fica ainda mais seguro de que seus segredos serão mantidos, respondeu-lhe o Rabino. A Igreja, trinta e seis anos mais tarde, introduziu, no seu ritual, o confessionário, juntamente com o voto de silêncio por parte do padre confessor - nesse ponto a história não conta se foi o Apóstolo que levou a idéia aos seus superiores da Igreja, o certo é que ela faz bem à humanidade, aliado ao voto de silêncio, 0 povo passou a contar as suas faltas.

Voltemos em 1808, na França de Bonaparte, que após o golpe dos 18 Brumários, se apresentava como novo líder político daquele país. A Igreja, sempre oportunista, uniu-se a ele e começou a perseguir todas as instituições que não governo ou a Igreja. Assim a Maçonaria que era um fator pensante, teve seus direitos suspensos e seus Templos fechados; proibida de se reunir. Porém, irmãos de fibra na clandestinidade, se reuniram, tentando modificar a situação do país. Neste período, vários Maçons foram presos pela Igreja e submetidos a terríveis inquisições. Porém, ela nunca encontrou um covarde ou delator entre os Maçons. Chegando a ponto de um dos inquisidores dizer a seguinte frase a seu superior: - “Senhor este pessoal (Maçons) parece BODE, por mais que eu flagele não consigo arrancar-lhes nenhuma palavra”. Assim, a partir desta frase, todos os Maçons tinham, para os inquisidores, esta denominação: “BODE” - aquele que não fala, sabe guardar segredo.

Texto: JOSÉ CASTELLANI
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O EXTERIOR REFLETE O INTERIOR

Conta uma popular lenda do Oriente, que um jovem chegou á beira de um oásis, junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:

"Que tipo de pessoas vive neste lugar?"

Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem? - Perguntou por sua vez o ancião.

Oh! Um grupo de pessoas egoístas e malvados - replicou-lhe o rapaz - estou satisfeito de haver saído de lá.

A isso o velho replicou - a mesma coisa você haverá de encontrar por aqui.

No mesmo dia, um outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:

"Que tipo de pessoas vive por aqui?"

O velho respondeu com a mesma pergunta: "Que tipo de pessoas vive no lugar de onde você vem?"

O rapaz respondeu: " Um magnífico grupo de pessoas amigas, honestas, hospitaleiras... Fiquei muito triste por ter de deixá-las.

"O mesmo encontrará por aqui" - respondeu o ancião.

Um senhor que havia escutado as duas conversas perguntou ao ancião: "Como é possível dá a mesma resposta a situações diferentes?"

Ao que o velho respondeu: "Cada um carrega no seu coração o meio ambiente em que vive".

"Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui. Somos todos viajantes no tempo e o futuro de cada um de nós está escrito no passado. Ou seja, cada um encontra na vida exatamente aquilo que traz dentro de si mesmo. O ambiente, o presente e o futuro somos nós que criamos e isso só depende de nós mesmo".

"O homem sempre colherá justamente o produto da semente que ele plantou!"
(Gálatas 6.7)
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domingo, 29 de abril de 2012

CARTA DO ZÉ AGRICULTOR PARA O LUIS DA CIDADE

Não se trata de ficção, mas da mais dura e injusta (criminosa a meu ver) realidade.

A carta a seguir - tão somente adaptada por Barbosa Melo – foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parque Nacionais e Reservas do IBDF-IBAMA 88o-89, detentor do primeiro Prêmio Nacional de Ecologia.

Prezado Luis, quanto tempo.

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês. Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade. To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?

Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né ..) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto.

Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.

Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa. Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou.

Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.


* Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.
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quinta-feira, 19 de abril de 2012

SOBRE DEUSES, PÁSSAROS E GAIOLAS

”Eu não tenho religião. Não vou a igrejas, não participo de rituais, não acredito nos seus dogmas. Preciso não ter religião para amar a Deus sem medo, com alegria e, principalmente, sem nada pedir. Não tenho religião porque não concordo com as coisas que elas dizem de Deus. Deus é um Grande Mistério. Está além das palavras.Diante do Grande Mistério a gente emudece. Fica em silêncio. Discordo a partir do pronome “ele”. Deus “ele”, masculino? Onde foi que aprenderam sobre o sexo de Deus? Deus tem sexo? Se tem sexo, por que não ela, Deus mulher? Como a mulher do Cântico dos Cânticos? A Igreja Católica não conhece a mulher. Conhece apenas a “mãe” que foi mãe sem ter sido mulher. Deus: por que não uma flor, a mais perfumada? Por que não um mar sem fim onde a vida navega? Místicos ouviram dizer que Deus é uma criança que nos convida a brincar… Mas pode ser também que Deus seja música, como pensaram os místicos pitagóricos.

Ter uma religião é falar as palavras sagradas daquela religião e acreditar nelas. As religiões se distinguem e se separam: pelas diferenças das palavras que usam para se referir ao sagrado. Se elas nada falassem, se houvesse apenas o silêncio diante do Grande Mistério, a Babel das religiões não existiria. Diante do Grande Mistério apenas uma palavra é permitida, a palavra poética, porque a poesia não o diz mas apenas aponta para ele. O Grande Mistério está além das palavras.

Se tenho uma religião ela se chama poesia. Por isso, amo a Cecília Meireles, sacerdotisa profana, que quando queria se referir a Deus falava sobre um mar sem fim, misterioso e selvagem. Quem em silêncio contempla o mar sem fim ouve vozes em meio ao barulho das ondas. Também Fernando Pessoa sabia disso. Mas, prestando bem atenção, é possível ver, a voar sobre o mar sem fim, um pequeno pássaro que canta:
“Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante, mais leve.
E a cascata aérea de sua garganta: mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve…”
Os poetas escrevem em transe: não sabem sobre que estão escrevendo. Faz muitos anos, escrevi um livro para minha filha. Ela tinha 4 anos. Eu iria fazer uma demorada viagem pelo exterior e ela ficou com medo de que eu morresse e não voltasse. Apareceu-me, então, uma estória, A menina e o pássaro encantado. Resumida, era assim:
Era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe contava estórias, o pássaro a fazia imensamente feliz. Mas sempre chegava um momento quando o pássaro dizia: “Tenho de ir”. A menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse. “Menina”, disse-lhe o pássaro, “aprenda o que vou lhe ensinar: eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência que a saudade vive. E a saudade é um perfume que torna encantados a todos os que o sentem. Quem tem saudades está amando. Tenho de partir para que a saudade exista e para que eu continue a amá-la, e você continue a me amar…” E partia. A menina, sofrendo a dor da saudade, maquinou um plano: quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu numa gaiola de prata dizendo: “Agora ele será meu para sempre”. Mas não foi isso que aconteceu. O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não mais tinha estórias para contar. E o amor acabou. Levou tempo para que a menina percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre e voltava quando queria. E ela soltou o pássaro que voou para longe. A estória termina na ausência do pássaro e a menina se enfeitando para a sua volta.
Minha intenção, ao escrever esta estória, era simples: consolar a minha filha. Mas quando foi publicada ganhou um sentido que não estava nas minhas intenções: começou a ser usada em terapia, com casais possuídos pela ilusão de que, engaiolado, o amor seria posse eterna… Desde então passei a presentear noivos com uma gaiola da qual eu arrancava a porta. Mas, passado algum tempo, uma pessoa me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!” “Sobre Deus?”, eu perguntei sem entender. “Sim”, ela me respondeu. “O Pássaro Encantado não é Deus? E as gaiolas não são as religiões nas quais os homens tentam aprisioná-lo?” Aprendi, então, da minha própria estória, algo que não sabia: Deus como um Pássaro Encantado que me conta estórias. Amo o Pássaro. Odeio as gaiolas. O Pássaro Encantado: não pousa em galhos para cantar. Não é possível fotografá-lo. Canta enquanto voa. Dele, o que temos é apenas a sua leve sombra voante e a cascata aérea de sua garganta… Quando ouço o seu canto, ele já passou. Só é possível vê-lo em seu vôo, por trás. Vai-se o Pássaro. Fica a memória do seu canto.

Um pássaro voando é um pássaro livre. Não serve para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo, controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é, precisamente, o seu segredo: a sua inutilidade: ele está além das maquinações dos homens. Sua única dádiva é o seu canto. Só faz um milagre, um único milagre: quando, chorando, lhe peço “Passa de mim esse cálice”, ele canta e o seu canto transforma a minha tristeza em beleza. Por isso eu nada lhe peço. Sei que ele não atende a pedidos. O seu canto me basta: ao ouvi-lo transformo-me em pássaro. E vôo com ele…

Mas aí vêm os homens com as suas arapucas e gaiolas chamadas religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que o seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro…

Por que prenderam o Pássaro? Porque o seu canto não lhes bastava. Não lhes bastava a beleza. Na verdade, não o amavam. O que os homens desejam não é a beleza de Deus. O que eles desejam é manipular o seu poder. O que eles querem é o milagre. O canto do pássaro poderia lhes dar asas para voar. Mas não é isso que querem. O que desejam é o poder do pássaro para continuar a rastejar: Deus, transformado em ferramenta. Ferramenta é um objeto que se usa para se atingir um fim desejado. Assim são os martelos, as tesouras, as panelas… O que as religiões desejam é transformar Deus em uma ferramenta a mais. A mais poderosa de todas. A ferramenta que realiza os desejos. Como o gênio da garrafa. Pois não é isso que é o milagre, a realização de um desejo por meio da manipulação do sagrado? Só é canonizada santa uma pessoa que realizou milagres: o milagre é o atestado do seu poder para manipular o divino.

E é assim que as religiões se multiplicam, porque os desejos dos homens não têm fim, e os seus santuários se enchem de santos de todos os tipos, os santos milagreiros são nossos despachantes espirituais, todos eles a serviço dos nossos desejos, atenderão nossos desejos a preço módico, se rezarmos a reza certa e prometermos publicar o milagre em jornal, e pela televisão se anunciam fórmulas, sessões de descarrego, águas bentas milagrosas, exorcismo de demônios, os DJs de cada religião têm uma música na fala que lhes é própria…

Assim, a poesia do canto do Pássaro Encantado se transforma em manipulação do pássaro engaiolado. E não percebem que aquele pássaro que têm dentro de suas gaiolas não é o Pássaro Encantado, que não se deixa engaiolar, porque é como o vento, e voa como quer, e tem uma única dádiva a oferecer aos homens: a beleza do seu canto. À transformação da poesia em manipulação milagreira ? Os profetas deram o nome de idolatria.

Assim, a poesia do canto do Pássaro Encantado se transforma em manipulação do pássaro engaiolado. E não percebem que aquele pássaro que têm dentro de suas gaiolas não é o Pássaro Encantado, que não se deixa engaiolar, porque é como o vento, e voa como quer, quando quer, e tem uma única dádiva a oferecer aos homens: a beleza de seu canto.


(Rubem Alves - do livro: "O Mundo num grão de areia")
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